Eis aqui mais um texto maravilhoso de José Saramago, o qual deveria nos fazer parar um minuto e pensar:
O negócio das armas, sujeito à legalidade mais ou menos flexível de cada país ou de simples e descarado contrabando, não está em crise. Quer dizer, a tão falada e sofrida crise que vem destroçando física e moralmente a população do planeta não toca a todos. Por toda a parte, aqui, além, os sem trabalho contam-se por milhões, todos os dias milhares de empresas declaram-se em falência e fecham as portas, mas não consta que um único operário de uma fábrica de armamento tenha sido despedido. Trabalhar numa fábrica de armas é um seguro de vida. Já sabemos que os exércitos precisam de armar-se, substituir por armas novas e mais mortíferas (disso se trata) os antigos arsenais que fizeram a sua época mas já não satisfazem as necessidades da vida moderna. Parece portanto evidente que os governos dos países exportadores deveriam controlar severamente a produção e a comercialização das armas que fabricam. Simplesmente, uns não o fazem e outros olham para o lado. Falo de governos porque é difícil crer que, a exemplo das instalações industriais mais ou menos ocultas que abastecem o narcotráfico, existam no mundo fábricas clandestinas de armamento. Logo, não há uma pistola que, por assim dizer, não vá tacitamente certificada pelo respectivo, ainda que invisível, selo oficial. Quando num continente como o sul-americano, por exemplo, se calcula que há mais de 80 milhões de armas, é impossível não pensar na cumplicidade mal disfarçada dos governos, tanto dos exportadores como dos importadores. Que a culpa, pelo menos em parte, é do contrabando em grande escala, diz-se, esquecendo que para fazer contrabando de algo é condição sine qua non que esse algo exista. O nada não é contrabandeável.
Toda a vida tenho estado à espera de ver uma greve de braços caídos numa fábrica de armamento, inutilmente esperei, porque tal prodígio nunca aconteceu nem acontecerá. E era essa a minha pobre e única esperança de que a humanidade ainda fosse capaz de mudar de caminho, de rumo, de destino.
(Esta entrada foi publicada em Maio 26, 2009 às 12:01 am e está arquivada em O Caderno de Saramago)
Vale a pena ler: http://caderno.josesaramago.org/
terça-feira, 17 de maio de 2011
domingo, 15 de maio de 2011
Uma estranha ironia
Talvez fosse uma espécie de tara pela perfeição que fazia aquele rapaz ver em si próprio nada mais do que o rascunho de um homem. Nem se lembrava mais de como tudo começara, ou mesmo se algum dia houvera um começo. Sabia que durante muitos anos só conseguira levantar a mão contra os mais fracos. Até que um dia, rebelou-se e resolveu não mais ser "pacífico" apenas pela metade, mas por inteiro. Se não podia enfrentar alguém mais forte, também não iria mais se aproveitar dos mais fracos. A falta de coragem para a ação sempre fora a sua cruz. Por isso, acabara se aperfeiçoando no discurso, como uma forma de fazer com as palavras o que não conseguia fazer com as mãos. Com efeito, quando ele resolvia dar um sabão em alguém, mais parecia um filósofo e ninguém ousava interrompê-lo. Seu discurso carismático tinha a carícia de uma pluma, mas também o corte preciso do bisturi ou a corrosão do ácido.
- Minha vida é um fracasso - pensava às vezes consigo mesmo - Eu não passo é de um grande frouxo, escondido atrás de um discurso cheio de palavras escolhidas...
O que ele nunca percebera é que, mesmo um frouxo, devidamente provocado, pode às vezes se tornar um leão. Talvez ele nunca tivesse permitido a si mesmo ser provocado ao extremo. No fundo, fora o "mais ou menos" que o arruinara...
Um dia, já cansado de tudo, decidiu por um fim naquela encenação: se não conseguia fazer o que desejava com as mãos, também não faria com a língua. Pegou um alicate e uma navalha. Foi até a frente do espelho, prendeu sua língua com o alicate, e com a navalha cortou-a fora de um golpe só, bem na base. Não imaginou que iria sangrar como uma torneira e, apavorado com aquele sangue todo, correu para a rua. Uns vizinhos o acudiram e o levaram ao hospital, mas os médicos não tiveram como por sua língua no lugar novamente. Tempos depois, já curado, foi matricular-se numa escola para surdos-mudos onde aprenderia, entre outras coisas, a fazer com as mãos o que antes fazia tão bem com as palavras...
(Jan Robba em "O livro das esquisitices")
- Minha vida é um fracasso - pensava às vezes consigo mesmo - Eu não passo é de um grande frouxo, escondido atrás de um discurso cheio de palavras escolhidas...
O que ele nunca percebera é que, mesmo um frouxo, devidamente provocado, pode às vezes se tornar um leão. Talvez ele nunca tivesse permitido a si mesmo ser provocado ao extremo. No fundo, fora o "mais ou menos" que o arruinara...
Um dia, já cansado de tudo, decidiu por um fim naquela encenação: se não conseguia fazer o que desejava com as mãos, também não faria com a língua. Pegou um alicate e uma navalha. Foi até a frente do espelho, prendeu sua língua com o alicate, e com a navalha cortou-a fora de um golpe só, bem na base. Não imaginou que iria sangrar como uma torneira e, apavorado com aquele sangue todo, correu para a rua. Uns vizinhos o acudiram e o levaram ao hospital, mas os médicos não tiveram como por sua língua no lugar novamente. Tempos depois, já curado, foi matricular-se numa escola para surdos-mudos onde aprenderia, entre outras coisas, a fazer com as mãos o que antes fazia tão bem com as palavras...
(Jan Robba em "O livro das esquisitices")
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Uma histeriazinha à toa...
- Bem – disse o psicólogo à ex-mulher do policial, sentada à sua frente – eu nunca fui muito bom em classificações, mas se a senhora insiste tanto em saber, eu diria que esse horror a tudo o que diz respeito ao sexo, toda essa teatralidade, esses maneirismos todos, essa infantilização, esses diminutivos todos, fora essa flagrante somatização, tudo isso parece apontar para um quadro de histeria...
- É...acho que eu preciso me policiar mais...
- ...
- Mas é só uma histeriazinha à toa, não é?
- Bem pequenininha...
(Jan Robba em:"O livro das esquisitices")
- É...acho que eu preciso me policiar mais...
- ...
- Mas é só uma histeriazinha à toa, não é?
- Bem pequenininha...
(Jan Robba em:"O livro das esquisitices")
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Titanic
"Nem Deus pode afundar este navio". Esta frase, que figura entre as mais célebres de todos os tempos, traduz bem o que era o positivismo e a crença no homem e na sua tecnologia em fins do século XIX e início do século XX. O Titanic, a maior e mais sofisticada obra da Engenharia Naval de sua época, lançou-se ao mar em sua viagem inaugural, de Southampton a Nova York, em 10 de Abril de 1912, para afundar três dias depois, resultando na morte de 1523 pessoas...
Consta que, caso dessem a devida atenção aos avisos de outras embarcações sobre a presença de icebergs no mar, e caso moderassem com o excesso de confiança, a tragédia poderia ter sido evitada.
A história tem grandes lições a nos ensinar, mas depende de nós aprendermos com ela ou não. Hoje, quase cem anos depois desta tragédia, nossos tecnocratas e governantes, junto com uma expressiva parcela da população mundial ainda sofrem destes dois flagelos: desleixo e excesso de confiança. Isto significa quase cem anos de obsolescência da mentalidade ocidental...
Lembro muito bem de, no segundo ano do curso Ginasial, em 1973, ter tido o primeiro contato com a recém saída do forno Ecologia e, de lá para cá, cientistas e técnicos têm sistematicamente alertado sobre problemas bastante sérios para toda a humanidade, caso não se pusesse um termo nesta destruição desenfreada do meio-ambiente. E lá se vão 40 anos...Tenho a esperança de que a humanidade acorde e aja a respeito, sob pena de ter que dormir para sempre.
A história da tragédia do Titanic, na qualidade de metáfora, é também deveras interessante e pode servir(por quê não?)como uma advertência: continua o barco da humanidade seguindo o seu rumo a todo o vapor, ciente mas indiferente ao provável destino que o espera. "Nem Deus pode afundar este navio...". É o que veremos...mas, no momento crucial, sabemos que, tal qual no Titanic, os primeiros a entrarem nos botes salva-vidas serão os da primeira classe...
Consta que, caso dessem a devida atenção aos avisos de outras embarcações sobre a presença de icebergs no mar, e caso moderassem com o excesso de confiança, a tragédia poderia ter sido evitada.
A história tem grandes lições a nos ensinar, mas depende de nós aprendermos com ela ou não. Hoje, quase cem anos depois desta tragédia, nossos tecnocratas e governantes, junto com uma expressiva parcela da população mundial ainda sofrem destes dois flagelos: desleixo e excesso de confiança. Isto significa quase cem anos de obsolescência da mentalidade ocidental...
Lembro muito bem de, no segundo ano do curso Ginasial, em 1973, ter tido o primeiro contato com a recém saída do forno Ecologia e, de lá para cá, cientistas e técnicos têm sistematicamente alertado sobre problemas bastante sérios para toda a humanidade, caso não se pusesse um termo nesta destruição desenfreada do meio-ambiente. E lá se vão 40 anos...Tenho a esperança de que a humanidade acorde e aja a respeito, sob pena de ter que dormir para sempre.
A história da tragédia do Titanic, na qualidade de metáfora, é também deveras interessante e pode servir(por quê não?)como uma advertência: continua o barco da humanidade seguindo o seu rumo a todo o vapor, ciente mas indiferente ao provável destino que o espera. "Nem Deus pode afundar este navio...". É o que veremos...mas, no momento crucial, sabemos que, tal qual no Titanic, os primeiros a entrarem nos botes salva-vidas serão os da primeira classe...
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