- Porra, cara, como é que a gente veio parar aqui?
- Aqui onde?
- Cara, não lembra que estávamos lá no meio do campo de pelada quando aquela porra, sei lá o quê, desceu na nossa frente?
- Sei lá...vai ver que a gente saiu correndo e, no susto, nem lembra que correu.
- Viu a placa ali atrás?
- Não. O quê tem?
- Lê então e vê o nome da cidade onde nós viemos parar...
Ele virou-se e ficou branco como cêra.
- Meu Deus...isso não é possível...
(Jan Robba em "O livro das esquisitices")
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Filosofando XXX
"A maior dificuldade de quem vai escrever e, pior ainda, está implicado com o que deixará escrito, está em decidir se vai escrever algo verdadeiro ou algo útil"
Jan Robba.
Jan Robba.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Uma estranha sêde
- Hoje eu vou te mostrar como é que se faz, e depois você não vai precisar nem de explicação.
Ele então se aproximou do primeiro homem que estava de pé com as mãos amarradas, e encostou o cano da pistola embaixo do queixo dele, apontando para cima. Apertou o gatilho e foi aquela chuva de sangue e miolos.
- Pronto. Agora é com você – disse ele ao novato, empurrando com o pé o corpo que então rolou para dentro do valão - Você vai ficar umas noites sem dormir e vai até perder a vontade de comer, mas com o tempo você acostuma. Toma – e entregou a pistola ao mais novo parceiro – atira com essa, que não tem erro.
- Pelo amor de Deus...eu tenho família – implorou o segundo homem, um agiota conhecido, chorando e já urinando pelas pernas abaixo – pelo amor de Deus...Quanto vocês querem?
O novato então se aproximou, colocou o cano da arma embaixo do queixo dele e foi tomado de um tremor quase incontrolável. Mas tinha que fazer aquilo, ou os outros ficariam para sempre com um pé atrás com ele ou, pior, dariam um jeito de ele "morrer no cumprimento do dever".
- Resolve logo essa porra. Mata logo esse filho da puta. Isso aqui é serviço pra homem e não pra mocinhas. Nós não temos a tarde toda.
Ele então apertou o gatilho e foi novamente aquela chuva de sangue e miolos. Vomitou o que havia e o que não havia em seu estômago.
Ficou vários dias sem comer e sem dormir direito. Resolveu experimentar um pouco do pó que o seu parceiro lhe oferecia de vez em quando. Sentiu que assim ficava mais fácil fazer o seu trabalho. Na farmácia havia uns tranquilizantes muito bons que qualquer policial podia comprar sem receita médica(e muitas vezes até sem pagar).
Passou-se um ano e pouco, e ele até estranhou por quê quase não conseguia mais lembrar daquele novato que ele fora. Agora, algumas(muitas delas) execuções mais tarde, não conseguiria mais comer ou dormir direito...se passasse muito tempo sem matar alguém...
(Jan Robba em: "O livro das esquisitices")
Ele então se aproximou do primeiro homem que estava de pé com as mãos amarradas, e encostou o cano da pistola embaixo do queixo dele, apontando para cima. Apertou o gatilho e foi aquela chuva de sangue e miolos.
- Pronto. Agora é com você – disse ele ao novato, empurrando com o pé o corpo que então rolou para dentro do valão - Você vai ficar umas noites sem dormir e vai até perder a vontade de comer, mas com o tempo você acostuma. Toma – e entregou a pistola ao mais novo parceiro – atira com essa, que não tem erro.
- Pelo amor de Deus...eu tenho família – implorou o segundo homem, um agiota conhecido, chorando e já urinando pelas pernas abaixo – pelo amor de Deus...Quanto vocês querem?
O novato então se aproximou, colocou o cano da arma embaixo do queixo dele e foi tomado de um tremor quase incontrolável. Mas tinha que fazer aquilo, ou os outros ficariam para sempre com um pé atrás com ele ou, pior, dariam um jeito de ele "morrer no cumprimento do dever".
- Resolve logo essa porra. Mata logo esse filho da puta. Isso aqui é serviço pra homem e não pra mocinhas. Nós não temos a tarde toda.
Ele então apertou o gatilho e foi novamente aquela chuva de sangue e miolos. Vomitou o que havia e o que não havia em seu estômago.
Ficou vários dias sem comer e sem dormir direito. Resolveu experimentar um pouco do pó que o seu parceiro lhe oferecia de vez em quando. Sentiu que assim ficava mais fácil fazer o seu trabalho. Na farmácia havia uns tranquilizantes muito bons que qualquer policial podia comprar sem receita médica(e muitas vezes até sem pagar).
Passou-se um ano e pouco, e ele até estranhou por quê quase não conseguia mais lembrar daquele novato que ele fora. Agora, algumas(muitas delas) execuções mais tarde, não conseguiria mais comer ou dormir direito...se passasse muito tempo sem matar alguém...
(Jan Robba em: "O livro das esquisitices")
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Um erro fatal
- Filho da puta...- pensou ele, meio falando, enquanto caminhava pela rua, tomado por aquela confusão de sentimentos que inclui não só um enorme desânimo, mas também auto-piedade, revolta e o ódio que todo mundo sente quando é descoberto fazendo algo que sabe que não se deve fazer. Tudo começara uns dias antes, quando fora participar de um processo de seleção, a fim de conseguir um emprego no setor de vendas de uma multinacional famosa. Viera agora receber o resultado do teste psicológico e, assim que se sentou, o psicólogo lhe disse por cima dos óculos:
- Cá entre nós, isso que você fez não foi muito honesto...ou foi?
- Não entendi...O quê foi que eu fiz?
- O fato de todos os outros depois de você terem dado a mesma resposta ao teste refresca a sua memória?
Ele olhou para o chão e sentiu que havia se dado mal. Não sabia o que dizer.
- Mais uma coisa – continuou o psicólogo - você pensou que era esperto mas, se fosse esperto mesmo, teria ficado na sua. Eu mandei você olhar uma figura e escever o que viesse à sua cabeça. No final, eu disse que a sua resposta estava muito boa, mas você não sabe que testes desse tipo não têm resposta certa ou errada. Nisso, eu acabei conhecendo a sua integridade...sua capacidade de, de vez em quando, agir honestamente, entende? E você, quando abriu o bico lá fora, não só se reprovou neste quesito, como reprovou todos os outros.
Ele então olhou para o envelope de papel pardo em cima da mesa, olhou para fora da janela e finalmente olhou para o psicólogo com aquele olhar de quem fora repentinamente reduzido a dimensões sub-atômicas.
-E ainda mais uma coisa: o que você viu na figura, na realidade não interessa nem um pouco, como não me interessa nem um pouco a sua honestidade.
- Hum?
- O que me interessa mesmo não está no teste, mas nem você e nenhum outro podiam saber disso. Então, com relação à honestidade, pode ficar tranquilo porque, até hoje, muito poucas pessoas íntegras passaram por aqui. E tem mais: o dono desta empresa não deve ser muito mais honesto do que você. Talvez ele procure apenas pessoas ousadas, auto-confiantes e que sabem o que querem, e que no fim das contas utilizem os mesmos métodos que ele usou para subir na vida...E você sabe, nesse ramo muitas vezes a honestidade até atrapalha...
- ...
- Bem, o meu procedimento aqui é o seguinte: eu faço a avaliação dos candidatos e entrego a cada um o resultado dentro de um envelope lacrado e carimbado e eles devem, se quiserem, retornar à empresa e entregá-lo ao gerente de pessoal, que é quem dará a última palavra. Caso o lacre seja violado, o laudo perde toda a validade e o candidato é automaticamente reprovado.
O psicólogo então pegou o envelope e o entregou ao candidato, dizendo por fim:
-Pegue. Faça o que quiser com isto. Você não sabe o que está escrito aí dentro. Se tentar saber, perde a validade. A decisão de entregar ou não à empresa é por sua conta, pois a passagem até lá é você quem vai pagar...
E agora estava ele ali na rua, sem rumo e com aquele envelope na mão(e é nessas horas que as lixeiras estranhamente desaparecem). Por fim, pensou:
- Porra, já que eu estou fudido mesmo, pelo menos quero ver o que está escrito aí...
E então abriu o lacre e retirou o laudo, cuja conclusão dizia: “O candidato é considerado apto para exercer o cargo para o qual se propõe”.
Agora sim, ele acabara de cometer o erro fatal...
(Jan Robba em:”O livro das esquisitices”)
- Cá entre nós, isso que você fez não foi muito honesto...ou foi?
- Não entendi...O quê foi que eu fiz?
- O fato de todos os outros depois de você terem dado a mesma resposta ao teste refresca a sua memória?
Ele olhou para o chão e sentiu que havia se dado mal. Não sabia o que dizer.
- Mais uma coisa – continuou o psicólogo - você pensou que era esperto mas, se fosse esperto mesmo, teria ficado na sua. Eu mandei você olhar uma figura e escever o que viesse à sua cabeça. No final, eu disse que a sua resposta estava muito boa, mas você não sabe que testes desse tipo não têm resposta certa ou errada. Nisso, eu acabei conhecendo a sua integridade...sua capacidade de, de vez em quando, agir honestamente, entende? E você, quando abriu o bico lá fora, não só se reprovou neste quesito, como reprovou todos os outros.
Ele então olhou para o envelope de papel pardo em cima da mesa, olhou para fora da janela e finalmente olhou para o psicólogo com aquele olhar de quem fora repentinamente reduzido a dimensões sub-atômicas.
-E ainda mais uma coisa: o que você viu na figura, na realidade não interessa nem um pouco, como não me interessa nem um pouco a sua honestidade.
- Hum?
- O que me interessa mesmo não está no teste, mas nem você e nenhum outro podiam saber disso. Então, com relação à honestidade, pode ficar tranquilo porque, até hoje, muito poucas pessoas íntegras passaram por aqui. E tem mais: o dono desta empresa não deve ser muito mais honesto do que você. Talvez ele procure apenas pessoas ousadas, auto-confiantes e que sabem o que querem, e que no fim das contas utilizem os mesmos métodos que ele usou para subir na vida...E você sabe, nesse ramo muitas vezes a honestidade até atrapalha...
- ...
- Bem, o meu procedimento aqui é o seguinte: eu faço a avaliação dos candidatos e entrego a cada um o resultado dentro de um envelope lacrado e carimbado e eles devem, se quiserem, retornar à empresa e entregá-lo ao gerente de pessoal, que é quem dará a última palavra. Caso o lacre seja violado, o laudo perde toda a validade e o candidato é automaticamente reprovado.
O psicólogo então pegou o envelope e o entregou ao candidato, dizendo por fim:
-Pegue. Faça o que quiser com isto. Você não sabe o que está escrito aí dentro. Se tentar saber, perde a validade. A decisão de entregar ou não à empresa é por sua conta, pois a passagem até lá é você quem vai pagar...
E agora estava ele ali na rua, sem rumo e com aquele envelope na mão(e é nessas horas que as lixeiras estranhamente desaparecem). Por fim, pensou:
- Porra, já que eu estou fudido mesmo, pelo menos quero ver o que está escrito aí...
E então abriu o lacre e retirou o laudo, cuja conclusão dizia: “O candidato é considerado apto para exercer o cargo para o qual se propõe”.
Agora sim, ele acabara de cometer o erro fatal...
(Jan Robba em:”O livro das esquisitices”)
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