sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Filosofando XLVII

O que há de mais mágico quando o amor acontece não é, afinal, o poder que ele tem de quebrar a nossa rotina? Devemos então ter cuidado para que o próprio amor não se transforme em rotina, porque a rotina é o leito macio onde agoniza e morre qualquer amor.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sem saída

- Você se considera um sujeito honesto?
- Sim, Doutor, eu sempre fui honesto... - e ele então terminou de tirar um pequeno cisco do seu tergal preto, impecavelmente engomado.
- hum...
- Pago minhas contas religiosamente em dia, honro minha palavra e os meus compromissos, sou fiel à minha mulher...Meu pai me ensinou a ser honesto em tudo.
- E aposto como era ele mesmo quem o obrigava a abraçar, beijar ou pedir a bênção a pessoas que você detestava, tipo aquele tio chato que você não ia com a cara, não é verdade? Eu desconfio de pessoas muito honestas...
- Por quê a desconfiança?
- Ora, porque é impossível um sujeito ser totalmente honesto, e principalmente para consigo próprio. Nós já aprendemos a ser safados bem cedo. Você acha que eu estou sendo honesto com você?
- Acho que sim.
- No entanto, eu cobro de você, e quem tem que fazer o trabalho sujo é você mesmo...Isso é honesto?
- ...
- Conhece o jogo de xadrez?
- Joguei umas partidas, quando era mais novo. Acho que jogava bem.
- Já experimentou jogar uma partida contra si mesmo?
- Não, Doutor.
- Se tivesse jogado, saberia que é impossível ganhar de si mesmo sem trapacear no jogo. Isso porque você, lá do outro lado do tabuleiro, sabe tudo o que você, do lado de cá, está pensando, suas intenções, planos, etc...E o quê é essa sua desordem? Pura Trapaça...
- Não entendi.
- Todo esse monte de sintomas aí que você apresenta, tipo mania de arrumação, de limpeza, essa sua questão com o tempo e com o dinheiro, enfim, até mesmo essa sua honestidade, tudo isso faz parte de algo cuja perpetuação só é possível se você trapacear contra si mesmo. E a trapaça já começou quando você veio aqui buscar uma terapia, alegando que não consegue se relacionar com as pessoas. Mas lá no fundo, você sabe que não é nada disso. E a maior prova de que você é um trapaceiro você vai me dar aqui nessa terapia. Duvida?
- Como assim?
- Na realidade, você está prestes a jogar uma partida de xadrez contra si mesmo, e eu aposto como você vai trapacear ou vai derrubar as peças todas no tabuleiro e vai embora, o que não deixa de ser uma trapaça.
- E você então, onde entra nisso?
- É simples. Eu sou você do outro lado do tabuleiro.
- Então eu estou pagando para jogar uma partida que não vai terminar nunca?
- Só se você for honesto. A propósito, quanto em dinheiro você acha que vale essa sua neurose?
- Ora, que absurdo. Vale nada, zero.
- Eu diria que, pela tremenda obstinação com que você se apega a ela e a defende com unhas e dentes, deveria valer uma fortuna. Diga um valor.
- Nenhum, Doutor - ele então remexeu-se na cadeira, olhou para o relógio(talvez já pela quinta vez em trinta minutos) e começou a limpar os óculos - nada mesmo.
- E se eu quisesse comprar todos os seus sintomas?
- Que loucura é essa, Doutor?
- Isso mesmo: eu quero comprar os seus sintomas.
- Isso é uma brincadeira?
- Não. É um jogo, como eu lhe falei. Diga o valor.
- Nenhum, Doutor...
O Psicólogo então lhe estendeu duas notas de cem reais, que somavam o mesmo valor daquela consulta.
- Tome. É seu. Ou você aceita, ou vai procurar outro psicólogo.
Ele olhou nos olhos do psicólogo e então pegou as duas notas. Aquilo soava como uma loucura, mas achou que, afinal, não era um mau negócio. "Tem louco pra tudo" - pensou.
- Fechado, então? - e o psicólogo estendeu a mão para um aperto que selaria toda a negociação.
- Se o senhor quer assim, fechado, doutor - e guardou as notas perfeitamente dobradas na carteira.
- Só tem uma coisa: a partir de agora, seus sintomas me pertencem, e você não poderá fazer uso deles em hipótese alguma, nem aqui e nem em lugar algum. Caso contrário, estará me roubando. Você vai ver também que o que eu paguei pela sua neurose foi uma ninharia. Confio em você...


(Jan Robba em: "O livro das esquisitices")

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O médium é a mensagem

"Meu senhor, eu deploro ser portador de tão más notícias..." E o mensageiro sabia que estava perdido...Conta-se que na Roma antiga, um mensageiro que trouxesse ao rei uma notícia ruim era imediatamente executado, pois ele mesmo era considerado parte da desgraça que vinha anunciar. O mensageiro esperto, que dava algum valor ao próprio pescoço, fugia no caminho, ou teria que inventar uma boa mentira para contar. Ainda não haviam inventado o "politicamente correto", de forma que este pudesse dizer, por exemplo: "Meu senhor, o Rei Fulano de tal, com quem Vossa Majestade tem uma diferença de opinião, manda informar que já se encontra a caminho e manifestou o forte desejo de promover o vosso encontro com Deus na glória eterna" e talvez com isso livrar seu pescoço. McLuhan dizia com muita propriedade:"O meio é a mensagem". Ora, se para ser convincente aquele que fala tem necessariamente que usar a expressão facial e corporal condizentes, então faz sentido afirmar que aquele que dá uma notícia boa ou ruim, como no caso do desafortunado mensageiro acima, é em alguma medida parte do que ele está narrando. Sabe-se que entre as muitas funções de uma mensagem, e talvez a mais importante nos dias de hoje, está a de lisonjear o ego do seu portador, fazendo-o parecer inteligente, original, engraçado, etc. E hoje, em meio a esta verdadeira obssessão por visibilidade, evidentemente amplificada pelo uso das redes sociais, um sujeito pode, em nome dela, nem sequer dar-se o luxo de refletir por alguns instantes no que está veiculando. Apenas a título de exemplo, por estes dias encontrei a seguinte pérola em uma rede social: "A mulher não se vinga; ela apenas faz o que aprendeu com os homens". Sem dúvida, um argumento desprovido de qualquer vestígio de verdade prática e, por isto, muito facilmente refutável. Talvez(ou com certeza)a moça que publicou tal insanidade nem sequer parou para lembrar que, com exceção dos assuntos profissionais ou acadêmicos, uma mulher raramente pede conselhos a um homem. Na verdade, ela vai pedir conselhos à mãe ou às amigas. Então, como pode afirmar que aprendeu a ser idiota com os homens? Mas, quando se trata de tornar-se visível, a verdade do conteúdo ou a coerência do discurso importam muito pouco.Vamos recorrer a um conceito caro para nós, do meio comunicacional, a fim de entendermos melhor o fenômeno: o conceito de Médium. Médium é palavra latina que significa "meio", bem ao modo como McLuhan o coloca. Daí a palavra da moda nos dias de hoje, "Mídia", que é o seu plural. É bem neste sentido que cada ser humano é um médium, ou seja: um ser que está o tempo todo veiculando opiniões, saberes, valores, etc, que o atravessam continuamente, tanto vertical como horizontalmente e no fim é essa a razão de a cultura existir e se perpetuar. Por conta da sedução que exerce aquela estranha função da mensagem, a qual citei acima, é que uma pessoa entra em uma rede social para postar ou, na maioria das vezes, apenas retransmitir o que quer que seja que, com isto, o faça parecer inteligente, original, engraçado, etc aos olhos dos outros. Então vem a parte trágica da história: assim como num centro espírita a perfeição com que um médium "incorpora" um espírito está na proporção inversa da consciência que ele tem de si mesmo naquele instante, aquele que veicula mensagens em redes sociais(que é o nosso caso aqui) tem que estar também inconsciente de si próprio num grau maior ou menor. Dito de um outro modo, quanto mais inconsciente de si mesmo estiver o médium, mais perfeitamente ele incorpora os valores da sua cultura. É no rastro das novas Tecnologias da informação que o modelo emissor/receptor, assim como a linearidade em comunicação já não se mostram suficientes, tendo que forçosamente dar lugar aos conceitos de médium e expansão viral e, assim, hoje mais do que nunca, a máxima de McLuhan se mostra verdadeira: O médium é a mensagem.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Para além do mundo dos sonhos

"Se a realidade, a vida que você leva, os seus projetos, as coisas que você tem, as pessoas que você conhece, enfim, se tudo isso fosse um sonho, como você o interpretaria?". Com esta pergunta instigante, L.F. Bennett encerrava o penúltimo capítulo do seu perturbador "O mundo dos sonhos". Ele fechou o livro e olhou pela janela do ônibus a multidão de carros e pessoas e pensou em como era louco aquilo tudo. Seu ponto era o próximo. Saltou, atravessou a Rio Branco e ganhou a Sete de Setembro, para mais um dia da sua vida de siri que, na realidade, era a vida que gostava de levar. Achava obsceno alguém ficar preso em um escritório criando barriga, renunciando ao próprio cérebro e juntando dinheiro para casar com uma mulher que anos depois se transformaria numa gorda histérica e que certamente iria ficar com a metade do que ele tivesse conseguido, caso decidisse abandoná-la. Amava a liberdade. Conhecia cada rua do Centro, cada botequim, cada puteiro, cada banca de jogo do bicho, cada camelô onde se podia trocar vales-refeição por dinheiro. Era uma radiante manhã de verão e ele imaginou como seria ótimo poder perambular por Copacabana, andar no meio daquela gente bonita e simplesmente olhar aquele mar imenso. Passou o dia entregando documentos ali mesmo pelo centro da cidade até as cinco e pouco da tarde quando, voltando ao escritório, sua chefe lhe deu uma última tarefa:
- Siri, tem ainda este cheque aqui, que você tem que entregar em Copacabana. Descansa um pouco e vai. Na volta, não precisa nem passar aqui. Vá direto pra casa, que eu bato o seu cartão de ponto com uma hora extra.
Ele pegou o envelope branco e olhou o boleto grampeado por fora. Não conseguia imaginar como alguém podia ter tanto dinheiro. Tentou calcular quantos anos precisaria trabalhar para juntar tudo aquilo. Talvez uma vida inteira não fosse suficiente. "Cento e cinquenta milhões é uma quantia astronômica", pensou. Colocou o envelope dentro do livro e foi. Lembrou que estava louco de vontade de fumar e não tinha um centavo, pois perdera tudo num jogo de apostas com uns salafrários na rua. Saltou ali, quase na esquina de Barata Ribeiro com Constante Ramos e em poucos instantes chegou ao apartamento do cliente, na Atlântica. A empregada mandou que entrasse e esperasse uns minutos, que o seu patrão já viria. Ficou boquiaberto com o revestimento de mármore das paredes internas, a mobília que parecia algo do século dezoito, as luminárias, a cristaleira, o oratório que fora de uma igreja barroca de Minas e que ele não conseguia imaginar como fora parar ali. Não parecia de jeito algum com um apartamento, muito menos um apartamento em Copacabana e menos ainda no século vinte. O cliente veio lá de dentro numa cadeira de rodas e ele não deixou de notar, com aquela aversão disfarçada que enfim todos sentem, que o homem não tinha as duas pernas, que pareciam ter sido cortadas bem rente. Entregou o cheque, pediu para que ele assinasse o boleto e já ia saindo, quando o cliente o convidou para se sentar e tomar um café. É uma tortura, e todo bom fumante sabe disso, tomar café quando se está louco de vontade de fumar e sem um mísero trocado no bolso. Tomou o café, conversou um pouco e ia novamente saindo, quando o homem tirou da carteira uma nota de cinquenta e lhe estendeu:
- Tome, é para você fazer um lanche.
- Obrigado, mas eu não posso receber gratificações(ele conhecia bem a malandragem dos gerentes, que volta e meia diziam para algum cliente oferecer uma boa gorjeta com a finalidade de testar a integridade dos office boys).
- Deixe de bobagem. Eu sei o que você está pensando. Pode aceitar. Não vou contar nada para o seu chefe.
- Ok, obrigado então.
Estava salvo. Tinha agora dinheiro suficiente para o cigarro, o almoço e as passagens de uma semana inteira. Saiu feliz pela rua à procura do primeiro bar, quando mais à frente se deparou com um mendigo sentado na calçada com uma cuia ao lado. Automaticamente, e por motivos que jamais conseguiria explicar nem a si mesmo, tirou todo o dinheiro do bolso e o colocou na cuia. Foi somente uns passos adiante que ele se deu conta da enorme burrada que acabara de cometer e então parou e olhou para trás, e o que viu o fez gelar por dentro. Fora os farrapos que estava usando, o cheiro de rato morto e a evidente falta de banho, aquele homem era absurdamente igual ao cliente que acabara de visitar, inclusive pelo desconcertante detalhe de que ele não tinha as duas pernas, que pareciam também ter sido cortadas bem rente ao corpo. Era algo como se fossem dois gêmeos que tivessem sido submetidos ao mesmo experimento macabro, tendo sido amputados pelo mesmo médico. Teve naquele instante a certeza aterradora de que havia sido tocado por algo além da sua compreensão, como se o insondável tivesse aberto uma porta e lhe mostrado sua face. Encostou-se na parede de uma loja e respirou. Sentia sua cabeça agora mais parecida com um liquidificador, onde nada mais podia ser reconhecido como um pensamento seu. Sentia que um nexo estranho e assustador ligava sua vida à daqueles dois naquele momento e que havia um outro sentido, incômodo e fantástico, naquilo tudo, mas num nível muito acima do real. Sabia que era, de longe, o mais feliz dos três, mas algo lhe dizia que, no final, podia ser ele a cobaia de um experimento assustador, e que o mundo talvez não fosse tão óbvio e banal quanto parece...
Olhou mais uma vez e seus olhos encontraram os daquele mendigo, em cujo brilho podia ler como que uma sentença velada: "Eu sei o que você está pensando...".
Tratou de sair logo dali e entrar no primeiro ônibus que apareceu...

(Jan Robba em: "O livro das esquisitices")